Estou lendo um livro muito bom, chamado "As Cem Melhores Crônicas Brasileiras". Livro este que traz crônicas de diversos autores sensacionais da história de nosso país. Logo no segundo texto, este que está localizado no capítulo de crônicas escritas entre os anos de 1850 a 1920, cujo título é este do post de hoje, "Modern girls". Apesar de ser um texto muito antigo, eu me surpreendi com a atualidade das coisas que lá esta escrito. Diz uma realidade daquela época, que infelizmente até hoje esta entre nós. Abaixo segue um trecho desta belíssima crônica de João do Rio.
“É que essas duas meninas são, meu caro Pessimista, um caso social – um expoente da vida nova, a vida do automóvel e do velívolo. O homem brasileiro transforma-se, adaptando de bloco a civilização; os costumes transformam-se; as mulheres transformam-se. A civilização criou a suprema fúria das precocidades dos apetites. Não há mais crianças. Há homens. As meninas, que aliás sempre se fizeram mais depressa mulheres que os meninos homens, seguem a vertigem. E o mal das civilizações, com o vício, o cansaço, o esgotamento, dá como resultado crianças pervertidas. Pervertidas em todas as classes; nos pobres por miséria e fome; nos burgueses por ambição de luxo; nos ricos por vício e degeneração. Certo, há muitíssimas raparigas puras. Mas estas, que se transformaram com o Rio, estes que há dez anos tomariam sorvete, de olhos baixos e acanhados, estas são as modern girls.
- Um termo inglês...
- Diga antes americano – porque americano é tudo que nos parece novo. Antigamente tremeríamos de horror. Hoje, estas duas pequenas são que nada de grave. Semivirgens? Contaminadas de flirt? Sei lá! É preciso conhecer o Rio atual para apanhar o pavor imenso do que poderíamos denominar a prostituição infantil. Este é o caso bonito – não se aflija – bonito à vista dos outros, porque os outros são sinistros. O que Paris e Lisboa e Londres, enfim as cidades européias oferecem tão naturalmente, prolifera agora no Rio. A miséria desonesta manda as meninas, as crianças, para a rua e explora-as. Há matronas que negociam com as filhas de modo alarmante. Há cavalheiros que fazem de colecionar crianças um esporte tranqüilo. A cidade tem mesmo, não uma só, mas muitas casas publicamente secretas, freqüentadas por meninas dos doze aos dezesseis anos. Ainda outro dia vi uma menina de madeixas caídas e meia curta. Olhou-me com insolência e entrou numa casa secreta, que fica bem em frente ao ponto de bonde em que me achava. Estas talvez não façam isso ainda, estas são as eternas pedidas.”
Nota alguma semelhança com os dias atuais?
Triste não!?
Gostei. Me empresta? ^^
ResponderExcluirOpa, é tudo nosso! hahahaha
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